Como os Mapas Podem Enganar Sua Percepção do Mundo
Mapas são ferramentas essenciais para compreendermos o espaço geográfico, desde o caminho até um endereço até a localização de países no globo. No entanto, o que muitos não percebem é que os mapas, embora pareçam objetivos, são também representações carregadas de escolhas — e essas escolhas podem distorcer a nossa percepção do mundo de maneiras sutis (e nem tão sutis assim). Neste artigo, vamos explorar como diferentes projeções cartográficas, decisões políticas e influências culturais presentes nos mapas afetam a forma como enxergamos o planeta, as pessoas e as relações de poder.
1. A Ilusão de Tamanho nas Projeções Cartográficas

A Terra é uma esfera (ligeiramente achatada nos polos), mas os mapas são planos. Para transformar um globo tridimensional em uma superfície bidimensional, é necessário distorcer alguma coisa — seja o tamanho, a forma, a distância ou a direção.
Projeção de Mercator
- O que é: Uma das projeções mais utilizadas no mundo, especialmente em escolas e navegadores.
- Problema: Ela exagera o tamanho das regiões próximas aos polos. Por exemplo:
- A Groenlândia parece quase do tamanho da África, mas na realidade a África é cerca de 14 vezes maior.
- A Europa parece maior que a América do Sul, quando na verdade é muito menor.
Essa distorção pode reforçar visões eurocêntricas, valorizando visualmente os países do norte global.
2. O Posicionamento do “Centro do Mundo”
Quem disse que o Hemisfério Norte precisa estar em cima? Ou que a Europa deve estar no centro?
- Mapas eurocêntricos: A maioria dos mapas convencionais coloca a Europa no centro, com os Estados Unidos e a Ásia bem posicionados.
- Outras perspectivas: Mapas alternativos — como os mapas invertidos (com o sul no topo) ou centrados na África ou no Pacífico — desafiam essa visão tradicional e revelam como nosso ponto de vista pode ser moldado culturalmente.
Exemplo: O Mapa de Peters
Criado como uma alternativa à projeção de Mercator, esse mapa distorce as formas, mas preserva o tamanho proporcional dos continentes. É mais fiel à geografia real, embora menos comum em escolas.
3. Os Mapas e as Fronteiras Políticas
Mapas também são instrumentos políticos. O que aparece ou deixa de aparecer em um mapa pode refletir decisões governamentais, conflitos diplomáticos ou disputas territoriais.
Exemplos:
- Crimeia: Alguns mapas a mostram como parte da Rússia; outros, como parte da Ucrânia.
- Taiwan: Em alguns mapas chineses, Taiwan é parte da China. Em outros, aparece como território separado.
- Israel e Palestina: Mapas podem apresentar versões totalmente diferentes, dependendo do ponto de vista político de quem os produziu.
Essas variações afetam não apenas o conhecimento geográfico, mas também a forma como pessoas e governos reconhecem (ou não) a soberania de povos e territórios.
4. O Silenciamento de Povos e Culturas
Ao longo da história, muitos mapas deixaram de registrar povos indígenas, suas terras e culturas. Florestas inteiras eram marcadas como “terra vazia”, justificando a colonização e a exploração de territórios.
- Exemplo: Durante a colonização das Américas, mapas europeus apagavam a presença de populações nativas, mesmo em regiões densamente habitadas.
- Consequência: A exclusão reforçou a ideia de que eram terras “sem dono”, ignorando civilizações complexas e milenares.
5. Mapas Temáticos e Manipulação de Dados
Mesmo mapas que não envolvem geografia física podem enganar. Mapas temáticos — como densidade populacional, distribuição de renda ou taxa de criminalidade — podem ser manipulados visualmente:
- Escolha de cores: Tons vermelhos intensos transmitem perigo, mesmo quando os dados não são tão alarmantes.
- Escalas desiguais: Áreas pequenas podem parecer mais significativas do que são, dependendo da escala e do destaque visual.
- Seleção de dados: Mostrar apenas parte da informação pode gerar conclusões distorcidas.
6. A Influência dos Mapas no Cotidiano

Mesmo com a popularização de ferramentas como Google Maps, Waze ou Apple Maps, ainda somos influenciados por decisões invisíveis:
- O que é mostrado: Empresas, pontos turísticos e estabelecimentos que pagam ou são bem ranqueados aparecem em destaque.
- O que é omitido: Regiões periféricas ou comunidades marginalizadas muitas vezes nem aparecem corretamente mapeadas.
Esses detalhes reforçam desigualdades e limitam a visibilidade de certas realidades urbanas e sociais.
Curiosidade
Em 1979, o cartógrafo australiano Stuart McArthur lançou o Mapa do Mundo Invertido, com o sul no topo. O objetivo era provocar uma reflexão: por que achamos natural o norte estar “acima”? Afinal, não existe um “cima” ou “baixo” no espaço.
Conclusão
Os mapas são ferramentas poderosas, mas não neutras. Por trás de cada linha, cor ou escala, há decisões que moldam a forma como enxergamos o mundo. Questionar os mapas que usamos — e entender suas limitações e intenções — é fundamental para desenvolver uma visão mais crítica, justa e plural da realidade global. Afinal, às vezes, mudar a forma como olhamos para o mapa é o primeiro passo para mudar a forma como vemos o mundo.
Referências (ABNT)
BROTTON, Jerry. Uma História dos Mapas. São Paulo: Zahar, 2015.
MONMONIER, Mark. How to Lie with Maps. Chicago: University of Chicago Press, 1991.
WOOD, Denis; FELS, John. The Power of Maps. New York: Guilford Press, 1992.




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